A traumática e vitoriosa prévia da aventura principal

– Iniciamos esta postagem com uma pergunta sucinta: O que de mal pode acontecer quando três motociclistas decidem realizar uma viagem relâmpago de 2.200 km? Infelizmente a resposta é bem mais complexa que a pergunta. Vamos acrescentar algumas informações que ajudem a tirar suas próprias conclusões: que tal uma janela de dois dias para chegar ao destino, não formalizar a ausência temporária à empresa, lidar com recurso financeiro limitado, sem planejamento de rota e não saber como a componente mais experiente (XT 600) iria se comportar no trajeto.

Chargem

Representação artística da viagem. Identifiquem os personagens após a leitura da postagem.

– Bom, antes que nosso gerente fique novamente furioso ao ler este relato, a única coisa que realmente planejamos foi como não falhar com os compromissos profissionais e prejudicar a empresa. Apesar de estarmos passando por mais uma decepção com o novo cancelamento da partida para o Atacama, por motivos de “saúde oval” do componente mais idoso do grupo, gozamos, com merecimento, da confiança de nossos gestores e demais colegas de trabalho nas diversas esferas da empresa e não queríamos de forma alguma decepcioná-los por não corresponder com nossos resultados. De qualquer forma, apesar do verdadeiro abalo e necessidade de um escape rápido da dolorosa realidade, reiteramos nossas desculpas, caso ainda existam ressentimentos conosco.

– Para evitarmos constrangimentos, chamaremos os participantes por pseudônimos, o Audaz, o Ás e o Cauteloso. Mas indo direto ao assunto a viagem foi uma experiência dolorosa, pois o que era pra fazermos em 2 dias ao invés de 3, nos custou 4 e com muita ralação. Isso mesmo, tão embolado como a frase anterior, deixamos que nosso navegador nos conduzisse ao léu saindo de Formosa/GO (sábado 22/11/14) com intenção de dormirmos em Lençóis/BA. Misteriosamente, errarmos o caminho em Barreiras/BA, percorrendo 100 km até perceber o erro, mas com o voto vencido do Cauteloso, o Ás defendeu seu lema: “– Rapaz, sempre em frente… ali na frente agente entra… Google tá informando.”. E como de praxe na viagem, o Audazsentava a munheca” como um batedor de cavalaria que vai desbravando à frente. Concluímos o dia com pouco mais de 800 km em Correntes/PI, após recebermos instruções turísticas de dois caminhoneiros.

BSB-JPA - Dia 01

Viagem Brasília – João Pessoa – Primeiro Dia

– O segundo dia (domingo 23/11/14) prometia a redenção de nosso Ás, encontrando um caminho familiar até nosso destino, porém após uma nova consulta ao “oráculo” que já havia nos enganado, seguimos nosso caminho por uma estrada ESPETACULAR, com uma paisagem ímpar arrodeando a Serra da Capivara. Vibrávamos com o esplendor do lugar e como acertássemos na sorte grande, considerando que aquilo pagaria a viagem por completo. Aí veio a surpresa. A estrada maravilhosa na verdade era o caminho para o inferno. Chegamos a uma pequena cidade, a qual não faço questão alguma em lembrar o nome, onde abastecemos e perguntamos a um pacato morador o caminho. Com toda boa vontade, nos conduziu a saída da cidade. Bom, ele nos levou aos mais longos 60 km que rodamos na vida resultando em 4 horas de viagem, 2 ippon’s da F800 e uma rasteira, além de um óculos de R$ 200 perdido pelo caminho. A estrada na verdade era uma trilha com centenas de trechos de dunas de areia totalmente fofa que, a um calor de 39 graus, nos levou a exaustão. Confesso que a maior parte do sacrifício foi pela minha falta de experiência (Cauteloso) e domínio da minha moto. O tão famoso controle de tração não servia de muita coisa e, pra falar a verdade, na metade do caminho eu já o trocava fácil por uma jarra de água. Não troquei o controle de tração da minha moto, mas a troquei pela XT do Ás, e foi aí que começamos a salvar parte do dia. Mesmo assim, só conseguíamos fazer trechos de 500 metros, onde dentre eles, três nos marcou muito: um boteco o qual quebrei o jejum de 11 meses sem beber refrigerante; o outro na casa da D. Francisca onde nos “abostamos” na sua varanda na sombra e tomamos 2 litros de água cada um; e o último a 4 km do fim da trilha infernal, quando paramos na casa de um palmeirense que nos ajudou com mais água, em troca dos óculos que informamos a ele onde estava para que fosse buscar uma hora qualquer, já que nem o “Papa” ia fazer agente voltar 10 metros que fosse. Mas a parada na região do boteco foi providencial, além de bem constrangedora, pois foi quando recebemos a orientação de um morador local: “– Ocês tem que secar os pinéis… vai ficar mais fáci…”. De forma imponente em cima de nossas BMW’s e XT, acenamos pra ele com quem diz: “– Quer ensinar vigário a rezar missa?”. Seguimos o caminho, mas paramos na próxima curva fora do alcance dos olhos do povo que minava de todo canto quando passávamos, e secamos os pneus até quase a roda da moto. Conseguimos rodar 15 km sem cair… que maravilha! Chegamos então a outro povoado que também não lembro o nome, mas sei que tiravam gasolina da bomba na manivela. Abastecemos as motos e perguntamos no local, o caminho para João Pessoa. A indignação veio após o sorriso do “matuto” no canto da boca que entre um sarro e outro, informou que tínhamos mais 90 km de terra até o asfalto. Assim chegamos no progresso, mas da cor de caramelo queimado e o Ás, pior ainda, por ter aberto a viseira no “poeiral”. O resultado do trágico dia foi 400 km rodados, um cansaço imenso, dores em locais que nem conhecíamos, assadura que não tínhamos desde os 3 meses de idade e, acreditem, 3 quilos a menos.

BSB-JPA - Dia 02

Viagem Brasilia – João Pessoa – Segundo Dia

– Levantamos no terceiro dia (segunda 24/11/14), decididos a não andar nem no acostamento se não tivesse asfalto e com a meta de João Pessoa em mente. Mas o segundo dia deixou sequelas, as quais duraram comigo por mais 2 semanas. Nosso Audaz nos puxava com determinação, a uma velocidade máxima de cruzeiro que combinávamos de 110 km/h, com paradas estratégicas de 150 km. Tudo em vão, pois tinham trechos que nem o víamos. Pra variar um pouco, o Cauteloso limitava o desempenho do Ás e como nossa cota de aventura não havia se esgotado no dia anterior, saímos da rota por 40 km, seguindo padrão. Já que estávamos ali, por quê não incluir o Ceará e Pernambuco na aventura “ao som do pandeiro”? Conseguimos a proeza de rodar 910 km, porém, particularmente fiquei bem decepcionado em fecharmos o dia a pouco mais de 300 km do destino, mas a segurança vem em primeiro lugar e não é à toa que sou o Cauteloso.

BSB-JPA - Dia 03

Viagem Brasília – João Pessoa – Terceiro Dia

– No quarto dia (terça 25/11/14), preocupadíssimos com nossas demandas profissionais, acordamos cedo e tocamos rumo a João Pessoa, via Campina Grande. Fizemos o último trecho em uma euforia singular, todavia com bastante atenção já que são nesses momentos que as probabilidades de erro ou acidentes aumentam consideravelmente.

BSB-JPA - Dia 04

Viagem Brasília – João Pessoa – Quarto Dia

– Felizmente a única surpresa do dia da chegada foi o show particular que tivemos com “Zé Lezim”, comediante famoso na Paraíba, que encontramos na concessionária BMW. Hoje podemos afirmar que os traumas passados enriqueceram nossos conhecimentos e se tornaram sentimentos de vitória. Agradecemos a Deus pelo fato do Pilar não está no grupo, pois não íamos encontrar um desfibrilador a tempo no fatídico segundo dia. Além disso, não temos a certeza que ele seria capaz de suportar a “pandeirada” entre Goiás, Bahia, Piauí, Bahia, Piauí, Pernambuco, Ceará, Pernambuco e Paraíba, rigorosamente nesta ordem.

Encontro com Zé Lezim

Equipe dos Motoqueiros Selvagens com Zé Lezim

Lembranças do Fatídico Dia 02

Viagem 01

Domingo 23/11/14 – Deserto do Piauí

Viagem 02

Domingo 23/11/14 – Deserto do Piauí

Viagem 03

Domingo 23/11/14 – Deserto do Piauí

Viagem 04

Domingo 23/11/14 – Deserto do Piauí

Viagem 05

Domingo 23/11/14 – Deserto do Piauí

Viagem 06

Domingo 23/11/14 – Deserto do Piauí

Viagem 07

Domingo 23/11/14 – Deserto do Piauí

Viagem 08

Domingo 23/11/14 – Deserto do Piauí

Viagem 09

Domingo 23/11/14 – Deserto do Piauí

Viagem 10

Domingo 23/11/14 – Deserto do Piauí

Viagem 11

Domingo 23/11/14 – Deserto do Piauí

10 comentários sobre “A traumática e vitoriosa prévia da aventura principal

  1. Susana Grillo Guimarães

    O relato é muito bom, dá umas boas risadas, Ótimo texto !!! Parabéns para o candidato a memorialista da viagem para Atacama !!!
    Algumas observações: não há deserto no Piauí … tá tudo verdinho na caatinga pois é época de chuva !
    Valei o “erro” no trecho pelo passeio na Serra da Capivara – um lugar lindo e o maior sítio de pinturas rupestres da América do Sul… Deviam ter ido ao Museu do Homem Americano em São Raimundo Nonato !
    Se o Ás, que sabe tudo e mais alguma coisa, tivesse ligado pro seu irmão que mora no PI há mais de seis anos e morou em São Raimundo Nonato durante sua graduação em arqueologia, os três teriam boas orientações quanto ao percurso !!!
    Mas valeu o treino para enfrentar o Atacama ! Lá tem deserto e é de sal ! Jurava que Cauteloso desistiria depois dessa viagem… Parabéns aos três, vale a pena ver o sorriso nas fotos. Um Feliz Natal e 2015 em Atacama !!!

  2. Agostinho Grilllo

    Quase vomitei de tanto rir… Tem os motoqueiros selvagens e os motoqueiros cangaceiros, agora… “tacale” cangaço “Ás”…

  3. Igor Nery

    Que bacana essa aventura, primo! Percebo que os traços genéticos aventureiros do seu avô desbravador desse Brasil varonil estão em você! Parabéns pelo empenho de vocês, tenho certeza que teremos mais histórias pra ouvir nas nossas futuras conversas de família no boteco do Seu Riba! Eu sei que você é o cauteloso, mas poderia ter o pseudônimo de “Jarana” também rara rara Mas continue com a cautela e boas aventuras pra vocês! Abraços
    Deixo aqui um desafio para os três aventureiros: na próxima, quando puderem, cheguem ao Recanto Quatro Corações pra tomarem um banho de igarapé (Rodovia do Cúria – AP 070, Km 70, Ramal Boa Vista).

    1. Alex Nery Pessôa Autor da Postagem

      Valeu primo, um dia quem sabe colocamos as motocas no navio e chegamos em Macapá… hehehe…

    1. Alex Nery Pessôa Autor da Postagem

      Bora Ton, anima aí. Essa é a primeira. Queremos em breve cruzar o Canadá. Quem sabe vc no meio hein? hehehe…

  4. Vicente

    Esta é a terceira vez que leu, está hilariante e incrível odiseia.
    A primeira vista, parecia uma viagem simples, sem muitos contornos e entornos, porém o relato impressionante e engraçado de toda história, em particular quando da areia, me faz questionar e quando chegar meu dia, de enfrentar as areias movediças das estradas, sem experiência, como sobreviverei?
    Por foi, é e será tão a leitura desse relato do que seria de apenas dois dias, tudo pode acontecer, esteja preparado.
    Portanto, mãos a massa e termos que nos preparar para todas as circunstâncias e imprevistos que podem surgir em uma aventura como esta.